Dedico
este texto à minha família angolana
Era
mais um Natal (2004 ou 2005?). Desta vez, não estava mais em Porto
Alegre, estava em outro país. Tive dois natais. A véspera do natal
onde se comemora o “réveillon”, fiquei com uma família
francesa. Do dia 25 em diante fui passar com aquela que hoje é minha
família angolana. Foram dias de conversas sobre África, França e
Diáspora.
Sylvie
era minha amiga de casa de estudante, nos tempos de IEP-Rennes
(Science Po). Era estudante de Direto. Lembro-me que parte desse
Natal passamos eu, ela, a irmã e outros presentes estudando. A
tradição da França de provas de inicio de Janeiro fazia com que
tivéssemos que estudar durante as férias de Natal. Através dela
fui apresentada ao Mafua, Tony e outros amigos que compuseram esta
família angolana. A Mainha dela se tornou minha Mainha. Quando me
casei, três anos depois, Mainha de Angola foi conversar com a minha
sogra no dia do casamento. Queria saber de tudo e mostrar que eu não
estava sozinha e que ia acompanhar tudo. A mesma Mainha que mandou
perguntar se estava tudo bem na hora da separação já em Angola.
Ah, sim, meus amigos angolanos foram os mesmos que me ajudaram
corrigindo meu francês e colaborando sobre o trabalho que havia
feito para a cadeira da Historia da África (única cadeira
africanista no período). Escrever sobre a independência angolana
com angolanos foi o primeiro gostinho do que seria e do que é até
hoje minha estadia na França.
Em
Recife, em meados dos anos 2000, me aproximei dos estudantes de Cabo
Verde. Estudantes com quem em aprendi a falar criolo. Hoje, as
palavras que eu me lembro não podem ser as mais pronunciáveis em
público. No geral, africanos não gostam de palavrões e se chocam
muitas vezes com a minha “delicadeza” no momento das piadas. Para
eles, os angolanos eram “basofa”. Basofa quer dizer metido, que
gosta de ostentar. Era notória a diferença das festas entre os
cabo-verdianos e os angolanos. Na minha cabeça até estes meados de
2004 tinha que os angolanos eram todos « basofas ». A
simplicidade e calor da recepção da família da Sylvie serviram
para entender que nem todos angolanos eram basofas.
A
minha historia é a historia de tantos outros estudantes fora de casa
que encontram, formam famílias, onde passam. Com o tempo, com o
contato com outros estudantes africanos quando eu cheguei à Paris,
passei a ver que o continente africano era maior que Angola e Cabo
Verde. Descobri que havia alguns basofas e outros não. Eram almoços
que duravam umas quatro horas e me fazia faltar às aulas de
italiano. Eram estudantes de varias áreas. A grande maioria
mestrandos e doutorandos. Eram conversas que iam de religião à
economia. Com eles, me sentia em casa. Eram todos negros.
Porém,
muitos deles não me viam como negra. Era mestiça. Nessas horas, eu
explicava a historia dos negros no Brasil e falava que eu era NEGRA.
Como algumas pessoas não entendiam, eu decidi explicar “a la
Marcia”. Desta maneira, eles entendiam que mestiça era região
glútea deles quando não tomavam sol. Alguns riam sem graça, porém,
pensavam três vezes antes de me atribuírem uma etnia que não fosse
negra. Meus amigos africanos foram aprendendo e respeitando a
minha forma de afirmação da africanidade, através da minha
negritude. Para eles, era normal ser negro. Porém, ter consciência
racial era outra coisa.
Quando
eu criei a Afros Mundos, uma das principais lutas foi mostrar o papel
que dos negros no Brasil como protagonistas de uma história de luta
e vitimas de todas as formas de racismo. Agora que estamos pautando
uma Semana da Consciência Negra voltada para os movimentos sociais,
para falar exclusivamente sobre Juventude Negra, era difícil
explicar, mais uma vez, que eu não era representativa. Nessas horas,
os poucos franceses negros e africanos que estiveram no Brasil eram
importantes para falar de racismo à brasileira, sobre discriminação
racial.
O
assassinato das estudantes negras é uma prova deste racismo
brasileiro. Agora, possuo um caso concreto e não cordial para
mostrar contra o que eu luto. Na rua, qualquer negro, independente da
nacionalidade, é negro. Hoje, vamos ver mobilizações de
solidariedade com nossas irmãs angolanas. Hoje, estudantes (não
apenas) africanos vão compreender que não é condição social,
sendo “basofa”, que serão protegidos de formas violentas de
racismo.
O
racismo à brasileira mostrou-se completamente. Mostrou-se o desprezo
à invisibilidade das mulheres negras. Um homem que bate em mulher já
não é digno de respeito. Um homem que atira na cabeça de uma
mulher não é digno de ser chamado de homem. Um homem que atira no
ventre de uma mulher negra não é digno de ser chamado de ser humano
Este ser humano que é branco se acredita, historicamente,
superior a outros seres humanos. Ele não é o único. Ele representa
o pensamento hegemônico de uma sociedade intrinsecamente racista.
Que
estes assassinatos sejam uma bandeira de luta contra o racismo que
atravessa os dois continentes. Que entre “basofas”, negros
brasileiros, não haja mais fronteiras. Que através deste caso, que
pode ser considerado o tipo ideal do racismo à brasileira, eu possa
ilustrar com todas as dores, com todo o sangue, com todo sentimento
de cordialidade, o racismo brasileiro. Que ele nos una como este
oceano Atlântico !
Que
as embaixadas africanas no Brasil e que os Governo africanos entendam
que nossas relações não pode ser somente comerciais. Que as
autoridades africanas, brasileiras se pronunciem em nome de nós,
negras e negros africanos, filhos da Diáspora e da Deportação
Africana !
Sejamos tod@s Zulmira!
Brasilía,
25 de maio de 2012
Para
mais informações: http://www.cdhic.org.br/v01/
