lundi 28 mai 2012

O que há de Angola em nós!










Dedico este texto à minha família angolana 






Era mais um Natal (2004 ou 2005?). Desta vez, não estava mais em Porto Alegre, estava em outro país. Tive dois natais. A véspera do natal onde se comemora o “réveillon”, fiquei com uma família francesa. Do dia 25 em diante fui passar com aquela que hoje é minha família angolana. Foram dias de conversas sobre África, França e Diáspora.



Sylvie era minha amiga de casa de estudante, nos tempos de IEP-Rennes (Science Po). Era estudante de Direto. Lembro-me que parte desse Natal passamos eu, ela, a irmã e outros presentes estudando. A tradição da França de provas de inicio de Janeiro fazia com que tivéssemos que estudar durante as férias de Natal. Através dela fui apresentada ao Mafua, Tony e outros amigos que compuseram esta família angolana. A Mainha dela se tornou minha Mainha. Quando me casei, três anos depois, Mainha de Angola foi conversar com a minha sogra no dia do casamento. Queria saber de tudo e mostrar que eu não estava sozinha e que ia acompanhar tudo. A mesma Mainha que mandou perguntar se estava tudo bem na hora da separação já em Angola. Ah, sim, meus amigos angolanos foram os mesmos que me ajudaram corrigindo meu francês e colaborando sobre o trabalho que havia feito para a cadeira da Historia da África (única cadeira africanista no período). Escrever sobre a independência angolana com angolanos foi o primeiro gostinho do que seria e do que é até hoje minha estadia na França.

Em Recife, em meados dos anos 2000, me aproximei dos estudantes de Cabo Verde. Estudantes com quem em aprendi a falar criolo. Hoje, as palavras que eu me lembro não podem ser as mais pronunciáveis em público. No geral, africanos não gostam de palavrões e se chocam muitas vezes com a minha “delicadeza” no momento das piadas. Para eles, os angolanos eram “basofa”. Basofa quer dizer metido, que gosta de ostentar. Era notória a diferença das festas entre os cabo-verdianos e os angolanos. Na minha cabeça até estes meados de 2004 tinha que os angolanos eram todos « basofas ». A simplicidade e calor da recepção da família da Sylvie serviram para entender que nem todos angolanos eram basofas. 

A minha historia é a historia de tantos outros estudantes fora de casa que encontram, formam famílias, onde passam. Com o tempo, com o contato com outros estudantes africanos quando eu cheguei à Paris, passei a ver que o continente africano era maior que Angola e Cabo Verde. Descobri que havia alguns basofas e outros não. Eram almoços que duravam umas quatro horas e me fazia faltar às aulas de italiano. Eram estudantes de varias áreas. A grande maioria mestrandos e doutorandos. Eram conversas que iam de religião à economia. Com eles, me sentia em casa. Eram todos negros.

Porém, muitos deles não me viam como negra. Era mestiça. Nessas horas, eu explicava a historia dos negros no Brasil e falava que eu era NEGRA. Como algumas pessoas não entendiam, eu decidi explicar  “a la Marcia”. Desta maneira, eles entendiam que mestiça era região glútea deles quando não tomavam sol. Alguns riam sem graça, porém, pensavam três vezes antes de me atribuírem uma etnia que não fosse negra. Meus amigos africanos foram aprendendo e respeitando a minha forma de afirmação da africanidade, através da minha negritude. Para eles, era normal ser negro. Porém, ter consciência racial era outra coisa.


Quando eu criei a Afros Mundos, uma das principais lutas foi mostrar o papel que dos negros no Brasil como protagonistas de uma história de luta e vitimas de todas as formas de racismo. Agora que estamos pautando uma Semana da Consciência Negra voltada para os movimentos sociais, para falar exclusivamente sobre Juventude Negra, era difícil explicar, mais uma vez, que eu não era representativa. Nessas horas, os poucos franceses negros e africanos que estiveram no Brasil eram importantes para falar de racismo à brasileira, sobre discriminação racial.

O assassinato das estudantes negras é uma prova deste racismo brasileiro. Agora, possuo um caso concreto e não cordial para mostrar contra o que eu luto. Na rua, qualquer negro, independente da nacionalidade, é negro. Hoje, vamos ver mobilizações de solidariedade com nossas irmãs angolanas. Hoje, estudantes (não apenas) africanos vão compreender que não é condição social, sendo “basofa”, que serão protegidos de formas violentas de racismo.

O racismo à brasileira mostrou-se completamente. Mostrou-se o desprezo à invisibilidade das mulheres negras. Um homem que bate em mulher já não é digno de respeito. Um homem que atira na cabeça de uma mulher não é digno de ser chamado de homem. Um homem que atira no ventre de uma mulher negra não é digno de ser chamado de ser humano  Este ser humano que é branco se acredita, historicamente, superior a outros seres humanos. Ele não é o único. Ele representa o pensamento hegemônico de uma sociedade intrinsecamente racista.

Que estes assassinatos sejam uma bandeira de luta contra o racismo que atravessa os dois continentes. Que entre “basofas”, negros brasileiros, não haja mais fronteiras. Que através deste caso, que pode ser considerado o tipo ideal do racismo à brasileira, eu possa ilustrar com todas as dores, com todo o sangue, com todo sentimento de cordialidade, o racismo brasileiro. Que ele nos una como este oceano Atlântico !





Que as embaixadas africanas no Brasil e que os Governo africanos entendam que nossas relações não pode ser somente comerciais. Que as autoridades africanas, brasileiras se pronunciem em nome de nós, negras e negros africanos, filhos da Diáspora e da Deportação Africana !

Sejamos tod@s Zulmira!





Brasilía, 25 de maio de 2012


Para mais informações: http://www.cdhic.org.br/v01/


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